É preciso fechar ciclos e perdoar as mágoas do passado. Assim como na natureza, nós também fazemos parte de um delicado equilíbrio e, apesar da nossa resistência e apego ao que foi vivido, somos construção e desmoronamento, emersão e naufrágio, elaboração e aniquilamento, preenchimento e vazio, aflição e satisfação, presença e ausência, perdas e ganhos, finalizações e recomeços, inquietação e reinvenção.

Muitas vezes a gente altera as coisas do lado de fora mas não modifica nada do lado de dentro. Corta o cabelo, muda de casa, pede demissão, altera o status de relacionamento do Facebook, tem um filho… mas continua a repetir padrões de insegurança, orgulho, culpa, mágoa, egoísmo. Aparenta leveza no sorriso mas tem uma lâmina aguda cravada no próprio peito. Diz “vida que segue” para os amigos mas no quarto escuro bate na tecla do saudosismo. Parece bem resolvido no discurso mas não consegue encontrar sentido no próprio percurso. Arrumar as gavetas e acender um incenso são pequenas atitudes que ajudam, mas é preciso mergulhar um pouco mais fundo se quisermos nos desconstruir e experimentar a vida mais profundamente.

Como uma pedrinha inconveniente dentro do sapato, o momento que antecede a mudança é sempre incómodo. Porém, podes optar por continuar a andar com aquele grãozinho saliente no teu calçado, ou podes decidir fazer algo a respeito. Geralmente as maiores mudanças vêm de grandes dores.

As maiores transformações acontecem silenciosamente, sem alarde, dentro da gente. Não há barulho, nem mudança no status do Facebook, muito menos foto no Instagram. Pode surgir a partir de um motivo grandioso ou vir à tona a partir de uma frase lida num livro novo. Naquele momento de transformação que é só teu, tu te tornas guardião da história que queres contar, e rompes os vínculos com tudo aquilo que impede ou dificulta o teu passo. Tomas consciência das tuas auto sabotagens, protecções, apegos. E decides que é chegada a hora de fazer uma fogueira e queimar tudo o que ainda te prende ao passado.

Ninguém habita o presente e o passado ao mesmo tempo, e tentar jogar uma partida aqui com o pensamento lá será sempre um desastre. Não tragas de volta antigas lembranças, elas sempre estarão envoltas em antigos rancores, e nem sempre terás domínio sobre as tuas emoções. Encerra ciclos, desapega do passado, não olhes para trás. Vida é erro e acerto, arrebatamento e assombro. Mas é, acima de tudo, transformação e impermanência…

Créditos: Fabíola Simões (adaptado)