O maior património: as viagens que fazemos e as pessoas que conhecemos. A gente não precisa ir tão longe para descobrir que a vida pode ser descodificada de uma forma mais leve, doce e sensível _ se estivermos abertos e dispostos a isso.

Como diz o poema de Fernando Pessoa: “Para viajar, basta existir”. O que precisamos é aprender a perceber o mundo de forma diferente. Aprender a perceber nós mesmos longe daquilo que pensamos ser essencial e que muitas vezes não é.

Viajar pode ser a oportunidade de aprendermos a reagir positivamente diante dos imprevistos, e descobrir que somos capazes de reinventar nossos planos usando a criatividade e a coragem.

Viajar é a oportunidade de nos recriarmos de formas mais simples e descompromissadas, descobrindo que o nosso mundo pode caber no espaço de uma mala, e que nossos pés ficam muito mais leves usando apenas chinelos de dedo ou meias confortáveis.

Nos apegamos ao nosso mundo, às nossas coisas, aos nossos objectos… como se isso pudesse nos definir. Ter uma casa, um ou dois carros na garagem, um closet cheio de roupas e sapatos… tudo isso é bom e nos dá segurança, mas somente deixando tudo isso para trás e seguindo com uma mala de rodinhas, podemos experimentar o que aguça os nossos sentidos e nos sensibiliza por completo. Como quando nos emocionamos diante de uma música nova, um pôr do sol deslumbrante ou um sabor que nos faz suspirar.

De repente descobrimos que a vida pode ser declamada como pura poesia, basta a gente estar pronto e aberto a ver.

Fora do barulho e poluição das ruas, distante da urgência dos despertadores, longe das mesmas paisagens e sabores… podemos acolher quem somos de facto. E nos percebermos crianças diante do mundo que acontece como grande novidade.

Talvez o maior património seja esse: viajar, ultrapassando as fronteiras do nosso universo particular, descobrindo o que nos comove a ponto de voltarmos renovados.

É bom investir nuns sapato, numa roupa nova, numa mala diferente. Mas investir num voo que nos conduz por novos horizontes, onde poderemos nos reciclar e recriar por algum tempo, é aquilo que todos dizem: “não tem preço”.

Não há dinheiro mais bem gasto do que aquele que usamos para viajar. Que permite que os nossos pés toquem um solo desconhecido e a nossa pele sinta o frio dilacerante ou calor reconfortante. Que desafia a nossa percepção e instiga o nosso olhar; que nutre os nossos sentidos e aguça o nosso paladar; que nos oferece caminhos onde iremos pisar e jornadas que irão nos transformar.

“Para viajar, basta existir”. Que descubras o que te move, o que te comove, o que desperta o teu desejo de reciclares-te perante o mundo. Que possas fazer as malas de vez em quando e sair à rua cantarolando. Que possas abandonar partes de ti mesmo que não têm mais significado e descobrir novos territórios para ocupar os espaços vazios. Que haja mar, brisa suave e cheiro de terra molhada. Que chova à noite e faça sol de dia. Que o dia branco prometido seja compensado pela nevasca da madrugada, e que a água salgada deixe escorrer tudo o que já lhe causou dor no passado.

Faz as malas se puderes. Faz planos, traça rotas, decifra mapas. Vai a lugares que só conheceste nos teus sonhos, pisa firme no chão que escolheste e respira fundo na atmosfera que te acolheu. Abandona bagagens desnecessárias e despede-te do que não faz mais sentido. Olha-te nos olhos frente ao espelho e encontra uma pessoa renovada. Lava o rosto, penteia o cabelo e toma uma chávena de café. Sente-te vivo, sente-te outro, sente-te pronto ara começar de novo…